E quando iremos entender…?

O ser humano parece ter uma tendência inerente a hierarquizar as relações sociais. Seguindo esta tendência, o mundo foi dividido em vários mundos. Cada um em seu posto sobre um pódio virtual, onde os primeiros ganham e os últimos perdem. Assim, surgiram as definições de primeiro, segundo, terceiro e quarto mundos. Etiquetas superficiais que definem quem tem mais ou menos direitos aos recursos do planeta.

De fato, há uma desigualdade significativa em termos de acesso a bens, serviços e oportunidades, se compararmos a realidade de dois países que se encontram em posições opostas no ranking do desenvolvimento, considerando aspectos como educação, renda e saúde. No entanto, foi-se criando ao longo dos anos um universo de conto de fadas em torno destas discrepâncias, de tal forma que a maioria das pessoas, me atrevo a dizê-lo, acredita que nos países chamados de primeiro mundo goza-se de uma vida deslumbrante onde direitos e deveres são respeitados e cumpridos em sua plenitude, vislumbrando um espaço livre da corrupção, violência e desigualdades sociais. Males, lamentavelmente, tão arraigados à estrutura social humana.

Obviamente, este universo não passa de mera fantasia, de certa forma justificável, é preciso admitir. A mídia exerce uma influência capital nesta cegueira social, que inclui a ausência de conscientização de que as desigualdades existentes entre os países devem-se a uma estrutura de exploração econômica, simbolizada por relações de colonização levadas a cabo há séculos. A despeito das diferenças naturais que surgem de espaços configurados por culturas, história e oportunidades distintas, estamos todos em um mesmo barco, navegando para algum lugar cujo nome e localização desconhecemos.

Esta visão fantasiosa contribui para que milhões de imigrantes, ano após ano, choquem a cara contra um muro de desilusões ao se lançarem à aventura de buscar melhores condições de vida em outros países. Alimenta um complexo de inferioridade crônico que faz brilhar os olhos do consumidor teceiromundistadiante de um produto importado. Cria distancias ilusórias entre povos que compartilham o mesmo berço e se diferenciam pela cor da pele ou o tipo do cabelo.

No primeiro mundo há muita gente bonita, é verdade, educada, gentil, mas também tem muita gente feia, mal vestida, sem higiene… As pessoas têm cachorros e os levam a todos os lugares, ao trem, à universidade, à discoteca (de cães) e a raves (de gente). Os primeiromundistas, pasmem, também peidam! Também xingam, falam asneiras, ignorâncias. Tem seus medos, angústias, tristezas… Eles também morrem… E muitos aparecem nos jornais depois disso, em notícias policiais que também espetacularizam a morte.

Há pessoas morando nas ruas, pedindo dinheiro… As pessoas usam drogas, fazem sexo… Formam-se e não conseguem emprego, conseguem emprego e não são felizes, compram o carro mais bonito e mais moderno e passam o resto da vida devendo a absurda prestação do apartamento minúsculo. Muitos vivem na Europa a uma distância de outros países menor do que a que os brasileiros vivem de suas cidades vizinhas. E, mesmo assim, muitos deles não conhecem outros países, outras culturas…

Sabem pouco sobre o “resto do mundo”, principalmente os nativos de países de língua inglesa que, em geral, não dominam outro idioma além do inglês, afinal “o mundo fala inglês” (?). As pessoas riem, choram, trepam, se apaixonam… Matam, morrem… Tem duas pernas, dois pés, uma cabeça e uma boca…

Assim como todas as outras…

O ser humano, meus caros, é um só.

Só que, infelizmente, ainda não entendeu isso…

Nascido em Maceió-AL, Brasil | 33 anos Arquiteto/Urbanista | mestre em planejamento para o desenvolvimento local | especialista em mobilidade urbana | Time do coração: CRB-AL

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