Charrete Cruz das Almas Maceió

charrete

Entre os dias 19 e 23 de janeiro, foi realizada uma oficina de desenho urbano, conhecida como “charrete” (saiba mais), na UNIT, em Cruz das Almas. O objetivo foi o de reunir representantes das secretarias municipais (técnicos e gestores), da sociedade e do mercado imobiliário para debater coletivamente o desenvolvimento da região que tem se transformado em um grande canteiro de obras nos últimos anos.

A oficina foi financiada pelos grupos ENGEMATLOC – Terraplanagem e locações LTDA, Litoral norte empreendimentos imobiliários LTDA, Canuto empreendimentos imobiliários LTDA e Fernando José Hollanda de Mello, em cumprimento a uma das obrigações definidas na assinatura de um Termo de compromisso de ajustamento de conduta – TAC, em virtude do impacto ambiental causado pela construção da Avenida Josefa de Melo (que já foi tema deste blog em outra postagem) e ocupação dos lotes lindeiros.

A inclusão da charrete dentro do TAC foi uma estratégia inovadora, capitaneada pela prefeitura e Ministério Público, que possibilitou a imersão daqueles que tiveram a oportunidade/interesse de participar sobre uma região da cidade, debatendo os problemas e potencialidades locais. Processos de planejamento participativo são sempre bem vindos, sobretudo dentro do contexto de desenvolvimento urbano desordenado presente, em maior ou menor grau, em todas as cidades brasileiras.

Esta lamentável realidade é fruto de uma série de fatores, incluindo a falta da cultura do planejamento. No entanto, muitas vezes há parâmetros legais e processos de planejamento bem construídos, mas que não são seguidos. Em outros casos, os próprios instrumentos de planejamento, que deveriam estar orientados para o bem comum, são manipulados por interesses alheios ao desenvolvimento urbano sustentável, em virtude da carência de pressão opositiva, tanto por parte do poder público quanto da sociedade, à voracidade do mercado imobiliário, que vai construindo nossas cidades muitas vezes unicamente sob o prisma do lucro.

A oficina

O começo foi um pouco conturbado, pois as pessoas estavam ansiosas para entender como se daria o processo e no que ele resultaria. Não estive presente no período da manhã, mas pelo que vi das manifestações à tarde, acredito que tenha faltado uma exposição clara e objetiva no início do processo, acerca de detalhes do método e os resultados esperados. Ao que parece, os esclarecimentos só vieram com as manifestações dos participantes.

No final do primeiro dia, porém, acredito que todos já haviam compreendido a ideia. A acústica da sala era muito ruim e a disposição de cadeiras, em formato tradicional de sala de aula, não contribuía para o fomento do debate. A partir do segundo dia, foi providenciado um microfone e ao longo da oficina a disposição mais livre das cadeiras melhorou a interação entre os participantes.

Alguns problemas em termos de organização que, no entanto, não se destacaram diante dos resultados positivos que foram alcançados. O escritório contratado (Neourbix), em parceria com outros profissionais, trouxe para a oficina o que há de mais avançado no que diz respeito à humanização das cidades. Conceitos como diversidade do espaço urbano, mobilidade multimodal, fachadas ativas, primazia do espaço público e cidades compactas foram debatidos e transformados em propostas de desenho urbano, tendo em conta o que foi sendo produzido em termos de opiniões, debates e ideias.

No que se refere ao conceito de cidades compactas, mostrou-se algo de muita relevância: que densidade não implica necessariamente na construção de edifícios muito altos (os famigerados espigões), como a legislação atual, lamentavelmente, permite. Diversidade e uso racional do espaço trazem muito mais benefícios a todos do que a monotonia do caixotão e do espigão isolado, de soluções engessadas para problemas coletivos, agredindo a paisagem e o meio ambiente.

Durante a oficina foram sendo feitas apresentações intermediárias do masterplan que ia se desenhando. Os momentos de pôr a mão na massa, abertos a quem quisesse participar, resultaram em ideias e propostas a partir da interação com a qualificada equipe de profissionais encarregada de desenvolver o plano.

Ao final, foi apresentada uma prévia do que virá a ser o masterplan  de Cruz das Almas. Muitos dos conceitos supracitados relativos à humanização das cidades foram incorporados ao desenho e às diretrizes. Senti falta, no entanto, tanto de propostas para a questão da habitação de baixa renda, sobretudo no que diz respeito às ocupações de grotas, quanto de uma ênfase mais contundente sobre os prejuízos decorrentes da ocupação que, em geral, se está planejando para o local.

Este último ponto é extremamente sensível, pois já há empreendimentos aprovados e em processo de análise que seguem a legislação vigente. A chave da questão é mostrar alternativas ao velho modelo conservador e pernicioso de desenvolvimento urbano, consolidado entre boa parte dos empreendedores e projetistas locais. Penso que o primeiro passo foi dado. É compreensível a cautela. Agora é esperar para ver o resultado final. O escritório contratado tem alguns meses para finalizar o plano com base no que começou a ser desenhado na oficina.

A charrete, enfim, foi um raro momento de pensar nossa cidade de forma intensa, dedicada, com vários profissionais de distintas áreas interagindo, ensinando e aprendendo coletivamente. Se soubermos aproveitar a energia criada, ela pode representar um marco no planejamento urbano local, mas na pior das hipóteses, ganhamos um importante instrumento para levar aos debates do plano diretor que acontecerão este ano. Certamente muito do que foi apresentado, debatido e proposto servirá para pensarmos a cidade como um todo, especialmente no que se refere ao necessário debate acerca da ocupação urbana do litoral norte.

Que venham mais charretes focadas em outras regiões da cidade. Que o masterplan de Cruz das Almas possa configurar um símbolo da concretização do sonho de se viver em uma cidade melhor. Com mais qualidade de vida, vitalidade, diversidade e acessibilidade a todos.

Sigamos na busca incessante de cidades mais humanas. Cidades para todos. Cidades para as pessoas.

 

 

ps. Congratulações à iniciativa da Secretaria de Planejamento em propor a Charrete e à sensibilidade do Ministério Público de entender a sua importância e incluí-la no TAC.

Nascido em Maceió-AL, Brasil | 33 anos Arquiteto/Urbanista | mestre em planejamento para o desenvolvimento local | especialista em mobilidade urbana | Time do coração: CRB-AL

1 Comentário

  1. Noaldo Dantas

    10 de fevereiro de 2015 no 14:40

    Parabeeens Renan Silva pela sua avaliação pertinente e construtiva.

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