O porquê da volta dos pardais em Maceió

A prefeitura de Maceió implantou sensores de controle da velocidade, respeito à faixa de pedestre e ao semáforo na cidade. Na verdade esta é uma volta dos famosos “pardais”. Maceió já teve estes instrumentos (muito mais do que agora, por sinal), que foram desativados na gestão do ex-prefeito Cícero Almeida, fazendo com que a capital de Alagoas fosse a única do nordeste a não ter fiscalização eletrônica de velocidade.

Ora, mas por que, afinal, é importante controlar a velocidade dos “carros”[1] nas cidades?

Por uma razão muito simples: a redução da velocidade de circulação contribui para:

  • Reduzir o número de acidentes de trânsito e, mais importante, diminuir a gravidade dos acidentes, já que quanto maior a velocidade, maior também é o impacto no caso de um choque;
  • Melhorar o fluxo do trânsito. Isso mesmo! Experiências diversas no Brasil e no mundo comprovam que o fluxo está mais relacionado à continuidade do deslocamento do que à velocidade. Quer entender melhor como isto funciona? Clique nestes links (Link 1; Link 2; Link 3; Link 4)

São Paulo implantou redução da velocidade de circulação no ano passado e os resultados foram: redução de 10% na lentidão do tráfego e de 35% no número de acidentes.

Há ainda um terceiro fator, também muito importante. Pense:

Você se sente seguro ao andar pela cidade? Fica tranquilo em deixar seus filhos irem à escola caminhando ou pedalando?

Certamente não! Correto?

Este é um sentimento compartilhado por todos nós.

A razão principal para nos sentirmos assim é a violência.

Seja a violência urbana, de armas em punho, seja a violência do trânsito, de carros e motos circulando em alta velocidade, desrespeitando as regras de trânsito e o espaço dos pedestres e ciclistas.

Você imagina quantos atropelamentos acontecem na cidade? Quantas crianças, idosos, estudantes, pais e mães de família perdem suas vidas num trânsito caótico e desumano?

Só em Maceió, mais de 160 pessoas morrem anualmente em nossas ruas e avenidas. Algumas delas atropeladas em plena luz do dia e sobre a faixa de pedestres.

Vivemos uma situação dramática, onde perdemos vidas e estabilidade emocional, levando famílias inteiras a sofrerem o impacto da morte ou da limitação física repentina.

Sabe qual a principal causa de acidentes?

O comportamento humano! A negligência, a imperícia e a imprudência.

Dentre estes fatores causadores, destacam-se o consumo de álcool e velocidade excessiva.

O álcool altera a capacidade de a pessoa dirigir e compromete a direção segura.

Já a velocidade, reduz o tempo de reação em uma situação de emergência e aumenta, como mencionado, o impacto no caso de um acidente.

Controlar a velocidade no espaço das cidades é uma ação fundamental para reduzir a violência no trânsito. E não só a violência que causa mortes e sequelas, mas a violência que afugenta as pessoas das ruas, que impossibilita uma pessoa com dificuldade de mobilidade de caminhar pelas ruas, que expõe nossas crianças ao risco constante de serem atropeladas, que faz inúmeras vítimas ciclistas, que são obrigados a se deslocarem sem a infraestrutura nem o respeito adequados.

Então, o terceiro fator citado seria:

  • Humanizar o espaço público, melhorando as condições de segurança de pedestres e ciclistas, convidando (e não repelindo) as pessoas.

Como controlar a velocidade, afinal?

Se vivêssemos em um mundo ideal, onde cada um fosse consciente e praticante de seus direitos e deveres e onde o respeito mútuo fosse uma constante, não precisaríamos de nada além do bom senso e da responsabilidade.

No entanto, não é este o mundo em que vivemos e a sociedade brasileira não segue exatamente um padrão japonês de educação.

Educação é muito importante, porém há duas coisas a serem destacadas:

  1. Ela não resolve o problema da segurança no trânsito de forma isolada. Segurança se faz, necessariamente, com o tripé: engenharia, educação e fiscalização;
  2. A fiscalização faz parte do processo de educação, de constituição de cultura.

É preciso, então, fiscalizar!

Muita gente foi às redes sociais protestar contra a instalação dos “pardais” em Maceió. Esbravejar contra o poder público que “reativou a indústria de multas” na cidade.

Ora. Esse argumento da indústria de multas até é válido no contexto brasileiro onde a corrupção é tão presente. No entanto, é preciso separar as coisas. Uma coisa é você ser autuado por estacionar em lugar proibido quando você estava com seu carro em outra cidade, a quilômetros de distância. A fé pública do agente de trânsito o torna refém da corrupção ou do erro humano, nestes casos.

Outra coisa é você ser autuado por um equipamento eletrônico que mede a sua velocidade e tira uma foto do seu carro, comprovando concretamente o cometimento da infração. Neste caso, não cabe esta argumentação da “indústria da multa”. Pode acontecer de seu carro ter sido clonado, mas aí já estaremos tratando outra questão.

Não quer contribuir com a “indústria de multas” dos pardais?

É só andar dentro da velocidade limite! Não tem segredo.

Quando os carros circulam mais devagar, todos nós ganhamos:

  1. Com menos acidentes de trânsito;
  2. Menos mortes e lesões;
  3. Menos gastos na saúde e na previdência social;
  4. O trânsito fica mais civilizado e as pessoas podem andar e pedalar com mais segurança;
  5. O fluxo dos carros fica mais constante e todo mundo chega mais rápido.

É preciso destacar, no entanto, que há contrapontos a tudo isto que estou elencando, no que diz respeito à Maceió:

  1. O período de “teste” deveria ter sido mais extenso e acompanhado de uma campanha educativa intensa, antecipando a fiscalização punitiva. Primeiro porque o objetivo da infração, em sua essência, não é a punição em si, mas o zelo pelo respeito às regras de trânsito e a contribuição para a constituição de uma cultura de respeito à Lei e às pessoas. Depois, porque há uma cultura de desrespeito à velocidade máxima permitida muito consolidada no Brasil. Fruto, dentre outros fatores, da omissão do poder público em relação à educação e à fiscalização de trânsito. E, por fim, porque esta seria uma atitude inteligente no sentido de enfraquecer o argumento da tal “indústria de multas”.
  2. A fiscalização eletrônica de controle da velocidade, respeito à faixa de pedestres e ao semáforo, para ser eficaz, precisa ser disseminada pelo espaço da cidade. O cidadão precisa ter a sensação de que está sendo fiscalizado em qualquer lugar. Senão, ele decora os pontos de fiscalização, desacelera nos redutores e em seguida volta a assumir a sua faceta Pateta “wheeler” (se você não conhece esse episódio do famoso desenho da Disney, assista aqui). É claro, trata-se de um processo. Penso que mais “pardais” serão instalados com o tempo. Foi dado o primeiro passo.
  3. A circulação à noite e pela madrugada não exige um controle tão rígido da velocidade. Há menos veículos e pessoas nas ruas. Então poderia ser pensada uma forma de flexibilização da fiscalização (possivelmente com velocidades variáveis ao longo do dia), em decorrência, também, dos riscos aos quais estão expostos os condutores, no que diz respeito à violência urbana.

E, por fim:

Grande parte da população aprova a implantação de equipamentos de fiscalização da velocidade. Acontece que a voz daqueles que não a aprovam (porque vai de encontro à sua “liberdade” de enfiar o pé na tábua, ou porque sustentam argumentos do senso comum sem se questionarem ou buscarem informação) fala muito mais alto.

Como a voz, por exemplo, de deputados alagoanos que, vergonhosamente, recuperaram o discurso tão populista quanto irresponsável de um ex-prefeito de Maceió contra estes instrumentos. Talvez esperando que o destaque destes discursos, fundamentados meramente no senso comum, os promovam junto à parcela da sociedade que compartilha do lema: “fiscalizar sim, mas não a mim”.

É lamentável que políticos, que deveriam zelar pela segurança das pessoas e batalhar por cidades cada vez mais humanas, ergam suas vozes para atuar contra algo que, diga-se, NÃO irá resolver o problema da violência no trânsito, nem irá, isoladamente, humanizar as nossas vias, mas que contribui para a redução da velocidade e melhoria das condições de segurança.

Não se deixe influenciar por estas falácias politiqueiras.

Antes de sair por aí opinando sobre este e outros temas, busque informação. Depois disso, sua opinião pode ser, SIM, contrária aos argumentos que estão aqui expostos, claro! As pessoas pensam de forma diferente e isso é saudável para a vida em coletividade. Mas não se deixe levar pelo senso comum. A opinião bem fundamentada constrói.

No final das contas todos queremos a mesma coisa: uma cidade mais humana, menos violenta, uma cidade para todos.


 

[1] Veículos automotores

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