Audiência pública sobre mobilidade em Maceió

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Hoje (dia 23/11/17) foi realizada uma audiência para discutir a mobilidade em Maceió.

As manifestações dos presentes foram quase todas na mesma linha: o trânsito na capital alagoana está caótico e só tende a piorar. Para superar esse problema é fundamental melhorar o transporte coletivo e o não-motorizado.

Não era de se esperar algo diferente. Não há nenhuma novidade nisso.

Embora seja importante a iniciativa da câmara, inúmeras outras audiências foram realizadas com pontos de pauta afins ao longo dos últimos anos, sem resultados muito concretos para a sociedade.

Sabem por quê?

Porque é preciso mudar!

E não é possível mudar, fazendo as mesmas coisas de sempre.

Vejam, quais são os investimentos visíveis em mobilidade que estão acontecendo em Maceió?

Tivemos recentemente a extensão do trem urbano até o Jaraguá. Muito bom, embora promessas feitas há anos davam conta de que ele chegaria ao shopping Maceió antes mesmo das eleições de 2010. Porém, sem dúvidas um ganho importante para a cidade.

Tivemos também outro ganho importante que foi a implantação de duas faixas preferenciais para ônibus (digo preferenciais porque elas não podem ser chamadas de exclusivas). Elas têm, no entanto, problemas acerca da desconexão e do controle de uso. Há muitos condutores que utilizam a faixa azul indiscriminadamente, seguros da fragilidade do controle e da impunidade. A faixa azul deveria ser controlada por sistema eletrônico. A forma mais justa e confiável.

Além disso, o que resta?

O mais do mesmo.

A receita de bolo de tudo aquilo que não funciona! De paliativos, que só fazem remediar o problema e, em alguns casos, até piorá-lo, como a ampliação do sistema viário sem a oferta de alternativas de transporte além do carro.

E vejam, eu uso carro todo dia (não porque gosto, mas porque, lamentavelmente, sou forçado a depender dele). Anseio por melhorias nas condições de mobilidade pra quem usa o carro também. Só que todos nós precisamos entender que a melhor forma de melhorar a mobilidade de quem usa carro, é diminuir o volume de carros das ruas.

E isso não se faz com rodízios, outro paliativo! Isso se faz, apresentando às pessoas uma relação custo-benefício favorável para elas escolherem, voluntariamente, outros modos de transporte, mais eficientes, que causem menos trânsito, poluição, prejuízos financeiros e mortes.

Por que muitos que não abandonam seu carro em hipótese alguma aqui no Brasil, quando vão para países europeus, por exemplo, ficam encantados em não precisarem de um carro e se movimentam felizes usando o transporte público?

Porque funciona! simples assim!

A pessoa coloca na balança e vê o que lhe é mais favorável. As pessoas não são burras! Enquanto o nosso sistema de transporte público for tratado como mera mercadoria, quase como um favor (mal feito) aos cidadãos, vamos continuar vendo as pessoas fugirem do sistema na primeira oportunidade que tiverem.

Eu sou professor. Tenho alunos que quando vão pra faculdade de ônibus, não levam seus computadores pessoais e nem mesmo seus celulares com medo de serem roubados no transporte público. O que essas pessoas irão fazer na primeira oportunidade que tiverem? Abandonar o transporte público!

Existem milhares de trabalhadores de baixa renda que veem seus orçamentos familiares comprometidos consideravelmente com passagens de ônibus. O que essas pessoas fazem na primeira oportunidade que surge? Abandonam o transporte público!

Estamos vendo um processo de migração intenso do ônibus para as motos. Particulares ou moto-táxis, mesmo sem regulamentação. Do ônibus formal para o transporte clandestino. Por quê? Porque as pessoas PRECISAM se mover pela cidade. Se o transporte público é caro, desconfortável, inseguro e não confiável, elas vão migrar assim que puderem.

E então nós vemos um ciclo vicioso se formando. As pessoas na primeira oportunidade que têm fogem do transporte público; o número de passageiros cai. O custo de operação do sistema sobe com a inflação e a sustentabilidade se compromete com a queda no número de usuários. E daí surge a necessidade de aumentar a tarifa, que expulsa ainda mais passageiros. 

É mais barato pagar a prestação da moto do que usar o ônibus. E daí a moto se torna o meio de transporte da família. E, sendo um transporte onde as pessoas ficam muito vulneráveis, nós vemos o cenário de calamidade dos acidentes. Com um custo social altíssimo e um custo econômico na ordem de 260 milhões de reais por ano para o estado de Alagoas.

As pessoas precisam se sentir convidadas a usar o transporte não-motorizado e o coletivo. Eles precisam representar conveniência e não um estorvo!

E isso só acontece quando o custo é viável e quando elas se sentem seguras em fazê-lo.

Os principais investimentos que vemos sendo empregados hoje em Maceió são em infraestrutura viária, em viadutos e em pavimentação. Ou seja: melhoria e expansão viária. Estratégias que, quando tratadas como foco principal e de forma isolada, são comprovadamente ineficazes. Apesar de boa parte da população aplaudi-las, em virtude de uma cultura do automóvel muito enraizada, o que leva a uma falsa ideia de que essa é a única forma de encarar o problema. 

Temos, a propósito, 3 viadutos (os famosos transportadores de engarrafamentos) em execução ou planejados na cidade: em Jacarecica (cuja obra está aparentemente parada e que não ligará em curto prazo coisa alguma a lugar nenhum); na conhecida rotatória da (ex) PRF e no Bom Parto. Esse último tem R$ 7 milhões previstos no PPA (Plano Plurianual) 2018/21 (para ele já havia R$ 27 milhões previstos no PPA anterior).

Enquanto isso, no mesmo PPA (documento divulgado para as audiências), temos previstos R$ 50 mil para ciclovias.

50 mil

Sabe quantos quilômetros de ciclovias conseguimos construir com essa cifra?

NEM um!

Além disso nós temos a previsão de:

Zero recursos para corredores de transporte;

Zero para sinalização de trânsito;

Zero para implantação de fiscalização;

Zero para regularização de calçadas.

Ora, como mudar nossa realidade sem investimentos?

Você, cidadão comum, quando deseja fazer uma viagem ou adquirir um bem de valor significativo precisa planejar, poupar e, ao fim e ao cabo, aplicar recursos financeiros para alcançar seu objetivo.

O planejamento de cidades não é tão diferente.

Não adianta ficarmos debatendo as melhores soluções para os problemas de mobilidade se não estamos dispostos a empregar recursos para executá-las.

Não é possível alcançar resultados diferentes fazendo as mesmas coisas de sempre.

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